Cursos e Profissões para Mulheres: Opção, Inclinação ou Condicionamento? - Parte 1

POR LUZOLO FELIZ

Imagem: Njideka Akunyili, © 2013, Fonte

Imagem: Njideka Akunyili, © 2013, Fonte

Há muito que me comprometi a escrever textos com pendor feminista sobre assuntos sociais no contexto angolano. Pretendo abordar aspectos que muitas vezes passam despercebidos ou são ignorados, devido à normalização de muitos problemas vividos por mulheres na nossa sociedade. Dessa vez, interessou-me escrever sobre um tema que tinha sido discutido num dos nossos encontros mensais do Ondjango. Entre jinguba torrada e bombós assados, problematizámos a questão do “Desenvolvimento”. O que é afinal? Realmente temos caminhado para o desenvolvimento? Onde as mulheres se enquadram no que tem acontecido no nosso país? Elas beneficiam do tal de desenvolvimento?

Olhei ao meu redor e percebi que não podia falar sobre o assunto sem antes questionar as (visíveis) escolhas (discriminatórias) para as frequências aos cursos universitários e não só, de meninas e mulheres, em particular, na cidade de Luanda. Escolhas bastante ambíguas, sobre tudo quando comparamos os números e os relacionamos ao género. Quero dizer que parece haver uma estreita conexão entre a escolha do curso a fazer, e o género da pessoa que o escolhe. Isso verifica-se facilmente ao entrarmos em salas de aulas para cursos como Ciências da Computação, Engenharias ou até mesmo Ciências Políticas e Filosofia. Ali, deparamo-nos com um número elevado de estudantes homens, e muito reduzido de estudantes mulheres. Se entrarmos noutras salas onde há cursos relacionados à Saúde, Assistência Social ou Hotelaria e Turismo, notamos exactamente o contrário.

Acredito que as escolhas das mulheres, de forma colectiva, influenciam crucialmente toda a estrutura de uma sociedade. Por isso, falar sobre mulher e desenvolvimento leva-nos a reflectir sobre tais escolhas. Não se trata de dizer que alguns cursos são mais importantes do que outros, mas de reflectir sobre a generização das ocupações profissionais. Entretanto, abordar o desenvolvimento actualmente, passa obrigatoriamente por falar de tecnologias, já que elas comandam os novos tempos - literalmente.

Acredito que as escolhas das mulheres, de forma colectiva, influenciam crucialmente toda a estrutura de uma sociedade.

É comum que os cursos básicos de Culinária, Decoração e Cabeleireiro lotem com raparigas entusiasmadas para aperfeiçoar os seus dotes culinários, aprender um prato novo ou um penteado. Apesar da maioria desempenhar essas actividades independentemente do quadro profissional ao longo das suas vidas, observamos que essas actividades suscitam muito interesse como opções de formação. Poucas decidem inscrever-se nos cursos básicos de Electricidade ou de Mecânica. Dir-se-á que é por comodismo? Por não quererem sair do conforto de fazer as coisas habituais? Por falta de interesse? Ou por terem alguma inclinação “natural” para tais áreas?

Existem, todavia, mulheres que optam pelo “inesperado”. Estas são muitas vezes exaltadas ou tidas como diferentes, comparadas ao modelo-homem, através do qual se reforça o estereótipo de que certas profissões cabem apenas para pessoas do sexo masculino, e a mulher que se atreve a enfrentá-las, definitivamente, não pode ser uma mulher normal.

Lembro-me do dia em que ia entregar o meu currículo para leccionar numa instituição do Ensino Médio de cursos politécnicos. Entre palavreados com outros concorrentes às vagas para docentes, um deles defendeu que “cursos de saúde não ficariam bem para rapazes; meninas saem-se melhor como enfermeiras e até educadoras de infância, porque elas sim, são maternais e cuidadoras, como predetermina a natureza feminina”.

Obviamente que esse entendimento está profundamente enraizado no conceito de maternidade, no qual se pressupõe que a pessoa com capacidade para carregar uma criança em seu ventre, já nasce munida para dar afecto, carinho; para cuidar e educar. Refutei logo, dizendo que um bom profissional não deveria ser julgado pelo seu género, mas pelo seu comprometimento em desempenhar as suas funções. E para que essa apreciação justa ocorra tanto com homens como com mulheres, é importante que não existam esse tipo de barreiras que limitem a capacidade do estudante em descobrir as suas verdadeiras inclinações, longe de noções preconcebidas ligadas ao género. Assim esfriou-se a discussão, com a minha observação sobre um comentário defendido por meia dúzia de professores.

... é importante que não existam [esse tipo de] barreiras que limitem a capacidade do estudante em descobrir as suas verdadeiras inclinações, longe de noções preconcebidas ligadas ao género.

O mesmo acontece com as artes. Já presenciei vários casos em que se recebeu com espanto a afirmação de uma rapariga no que tange à sua ligação a algum tipo de expressão criativa, talvez pelo facto das actividades remeterem para a idéia de liberdade e independência, e isso não é bem o que se espera da “natureza feminina”; maternal e cuidadora. Daquela mulher, espera-se sobre tudo que se dedique a algo que tenha como pano de fundo a menção “cuidar dos outros”.

Se a escolha realmente fosse intrínseca à sua natureza, nenhuma mulher se desviaria do grupo. Mas como este não é o caso, conclui-se que existe de facto toda uma pré-adaptação para essas escolhas. Ou seja, trata-se de um ciclo vicioso que começa desde cedo com a estimulação à inclinação para determinados afazeres, e não outros. Meninas, geralmente, não são solicitadas para a instalação de circuitos eléctricos, não são motivadas a manusear ferramentas como chaves de fendas ou estrela. Em contrapartida, são ensinadas desde a puberdade a segurar um muxarico, ajeitar a sua imagem, cuidar da casa e das pessoas que moram dentro dela. Isso tudo é o estimulado e, consequentemente, esperado. Afinal, ninguém plantará gindungo e quererá colher ginguba.

 

Sobre a autora:

Luzolo Feliz é estudante de Economia e Gestão de Saúde e de Teatro. É activista e gosta de poesia e de filosofia.

 

Ondjango Feminista