Em seios caídos: uma dica para recompormo-nos

 Foto de: Zina Saro-Wiwa (http://www.zinasarowiwa.com/photo/the-invisible-man/)

Foto de: Zina Saro-Wiwa (http://www.zinasarowiwa.com/photo/the-invisible-man/)

POR LEOPOLDINA FEKAYAMÃLE

Em sociedades, contextos, meios habitats em que nos ensinam, a nós mulheres, a deixar o nosso bem-estar à parte ou sempre em segundo plano para dedicarmo-nos aos outros, importa aproveitar todas as oportunidades para analisarmos, individual e colectivamente, as diferentes formas com as quais somos levadas a auto-anularmo-nos.

E é na senda de aproveitar oportunidades para falar e pensar sobre algumas ideias que pairam na consciência social e nos definem, limitam e relegam a espaços de opressão que vos convido a andar comigo ao longo deste texto e analisar uma música do cantor angolano Lil Saint cujo título é “Seios Caídos”. Não esgotaremos, para já, todas as nuances que a música levanta, focar-nos-emos em algumas.

Na música, uma mulher conta a sua história e pela própria voz traz ao de acima aspectos que são transversais e reflectem o quotidiano de muitas outras mulheres no nosso contexto.  

Na primeira estrofe, em duas partes, ela começa expressando suas dores e diz:

Enxugo as lágrimas
Que sempre derramo por ti
Não quero mais chorar
Não quero mais viver assim
Tu me faltas com respeito
Dás valor a falsos seios,
Seios com silicone
Desdenhas os meus naturais

Já não vês beleza em mim
Já dizes que tenho rugas
Que não sirvo para ti
Tu mesmo é que já não mudas
Corrompes todo meu empenho
E a pouca força que hoje eu tenho
Gasto pra ti
Para te ver feliz

Na primeira parte da estrofe, claramente, vemos uma pessoa cuja saúde psicológica está desgastada. Uma mulher que se encontra num relacionamento abusivo do ponto de vista psicológico, sentindo-se desvalorizada e com exaustão do tanto que chora por causa da outra pessoa. Entretanto, vemos aqui também vários aspectos da socialização que constroem a imagem das mulheres e que vão tecendo toda sua humanidade em função de “servir a e para um homem”.

Este “servir a um homem e para um homem” a que somos submetidas é construído, paulatinamente, em vários aspectos da nossa vida e tem vários níveis de abrangência. Um dos primeiros aspectos que salta à vista logo no início é a questão da beleza, de se “ser bonita o suficiente” e sempre “apetecível” aos olhos do homem. Ela diz “dás valor a falsos seios, seios com silicone e desdenhas os meus naturais”, revelando como em muitos momentos se ensina às mulheres a odiarem e reprimirem características do seu próprio corpo, resultantes de processos naturais e inerentes ao seres humanos.

A referência a ter rugas e aos seios com silicone que são preferidos aos naturais pelo valor que se lhes atribui, faz pensar na pressão que se faz sobre as mulheres para terem o corpo sempre “jovem” e na ditadura da beleza que muitas vezes afecta a auto-estima; faz pensar na rivalidade feminina que se fomenta em função disso; e faz-nos esquecer que a medida que o tempo passa, naturalmente, o nosso corpo vai-se transformando e envelhecendo: é parte da vida e é natural. Por ser natural, é importante reflectirmos nisso e pararmos de cobrar às mulheres que se mantenham “perfeitamente jovens” e exigir que sigam à risca padrões que desgastam e dão cabo da nossa saúde mental.

Mesmo cansada, mesmo após uma rotina de lágrimas e de uma vida sofrida, essa mulher revela-nos que “a pouca força que – ainda – tem gasta para o homem, para vê-lo feliz”. Vemos um certo padrão que se repete aqui, repete-se na medida em que conhecemos muitas mulheres à nossa volta, próximas ou distantes, presas em relacionamentos onde a anulação de si mesmas em função de outra pessoa é a marca principal.

Aqui é importante pensarmos que muitas mulheres ficam presas ou permanecem em ciclos de violência psicológica ou física não porque querem ou gostam de sofrer. Às vezes, é preciso lembrar como a sociedade ensina a mulher a fazer de tudo para primeiro conseguir um casamento, depois mantê-lo a todo custo, independente de como tal casamento não funcione, não lhe faça bem e lhe deixe infeliz. E é importante, ainda, lembrar como várias instituições como, por exemplo, a família e a religião, que têm bastante peso no nosso contexto, educam e incentivam as mulheres a “aguentar só” e a sacrificarem-se a favor do homem esquecendo-se delas mesmas.

Andamos mais para frente na música e deparamo-nos com o refrão que vem a seguir:

São esses seios caídos
Que amamentaram os teus filhos,
Serviram de conforto,
Quando pedias colo,
E cada ruga que vês no meu rosto
É marca do sofrimento,
Causado por ti, causado por ti

Os seios caídos representam uma vida sofrida, dedicada a satisfazer as vontades e os desejos de um homem sem se importar consigo mesma. Ensinam-nos que temos de cuidar dos outros, ter filhos e cuidar deles, ter marido e cuidar deles, cuidar de tudo e todos, sempre.

Mas, e de nós quem cuida? Quem recolhe os nossos cacos quando todo o peso da excessiva responsabilidade de cuidado que se nos atribui começa a gritar dentro de nós? Quem pára para pensar que precisamos igualmente de colo, que somos humanas e não super heroínas? Quem olha para o nosso sofrimento quando precisamos não de vozes que nos acusem de faltar com “os nossos deveres de boas mulheres” mas sim de vozes que nos ajudem a sair desses ciclos de desgaste e a recompormo-nos?

A música continua e vem a última estrofe, também dividida em duas partes:

Tu querias ter mais filhos
Por isso é que nunca
Mexi no meu corpo
Como essas miúdas
Agora diz-me o que tu vês
Pra quem cuidou dos teus bebés
Sou muito mulher,
Me sacrifiquei pra seres o que és

E nos momentos mais difíceis
Fui eu que suportei
No tempo das vacas magras
Fui eu que te aturei
Porquê que agora que estás bem,
O bem partilhas com outro alguém?
Esqueces de tudo isso.

Representam-se aqui, aos bocados, vestígios de uma educação e socialização que não incentivam a autonomia emocional, psicológica, financeira e a liberdade individual das mulheres. Mulher não escolhe nada! Quantas vezes já ouvimos isso? E nem sobre o próprio corpo pode fazer escolhas.

Ela diz, na música, “tu querias ter mais filhos por isso é que nunca mexi no meu corpo como essas miúdas”, demonstrando como a falta de voz e o poder de decisão lhe foi retirado. E não pensemos que ela, simplesmente, deixou-se levar e cedeu, o buraco é mais fundo do que isso, é mais fundo do que, unicamente, esta mulher ter-se deixado viver sem fazer valer a própria voz. Vivemos em contextos onde ensinam-nos que faz parte de “ser boa mulher” não ter voz e não interferir nas decisões do marido ou do homem que nos acompanha. Obviamente que existem excepções, mas a regra ainda faz a maioria nesse quesito, e esta maioria perfaz esses padrões.

Pergunto-vos: até quando teremos de viver assim? Sem voz e a auto-anularmo-nos? Até quando se vai educar e exigir das mulheres que se sacrifiquem, que se anulem, que sejam sugadas enquanto os outros constroem suas vidas e bem-estar em cima do seu sacrifício?

É imprescindível continuarmos a repensar os papéis de género, também repensar na excessiva atribuição de responsabilidades que recaem sobre a mulher na família e na sociedade. Não somos inquebráveis, não suportamos e nem temos de suportar tudo a favor dos outros. A liberdade individual, o poder de escolha e decisão sobre nós mesmas, sobre as nossas vidas, que são direitos fundamentais nossos, precisam voltar para serem respeitados.

Ondjango Feminista