Mulheres resilientes, comunidades sustentáveis: o exemplo dos Gambos

POR CECÍLIA KITOMBE

Depois de ter participado do XIX módulo de Formação em Desenvolvimento Comunitário, uma das principais actividades institucionais da Acção para o Desenvolvimento Rural e Ambiente – ADRA – que decorreu na cidade do Lubango, província da Huíla, entre os dias 7 e 11 de Maio do ano em curso, tive a oportunidade de ouvir histórias de sucesso, de experiências ligadas aos diferentes projectos implementados pela ADRA. Um dos projectos que chamou a minha atenção diz respeito às acções voltadas para a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas, em curso no município dos Gambos. Uma destas acções traduz-se na construção de sistemas de retenção da água das chuvas.  Pretendo partilhar, neste artigo, estas experiências, dando ênfase ao envolvimento das mulheres no referido processo. 

Não é segredo que há muitos anos, a parte sul do país (principalmente as províncias da Huíla, Cunene e Namibe) é ciclicamente afectada por um cenário oscilante de seca e cheias, facto revelador da ocorrência de alterações climáticas na região, com consequências sociais gravosas para as comunidades locais. Este comportamento climático tem incidência na vida das famílias, colocando em risco o seu direito à vida e dignidade humana. Esta situação – em que se há muita água gera enchentes e se há pouca origina períodos de seca – exige das comunidades locais muita luta e resistência diária para a sua sobrevivência. É neste contexto que a ADRA tem vindo a desenvolver, desde 2015, um projeto de resiliência à seca, apoiado pelo NCA (Ajuda das Igrejas da Noruega) junto das comunidades, de modo dar resposta aos problemas sentidos pela falta de água. 

É importante sinalizar que projecto está enquadrado no pensamento filosófico da ADRA, que tem que ver com a necessidade de promover o desenvolvimento sustentável das comunidades, tendo em consideração a sua autonomia, apoiando-as na resolução de problemas concretos, potenciando a utilização de recursos locais e das tecnologias adaptadas, socialmente compatíveis e ecologicamente correctas.  

Valores como solidariedade, respeito, integridade, participação e justiça social levaram a ADRA a desenvolver o referido projecto, que teve o seu início na comuna do Chiange, município dos Gambos, em cinco comunidades do Ngueya, Luheque, Tchico, Ehongo e Tunda do Chiange. 

À medida que fui ouvindo a narração dos factos, comecei a questionar-me sobre que impacto um projecto desta dimensão teria na vida das mulheres residentes nas comunidades abrangidas. De que forma as mulheres foram envolvidas no processo de construção dos sistemas? E como é feita a manutenção dos mesmos? Estas e outras questões permearam a discussão, e obtive algumas respostas que passo a descrever. 

Sabe-se que as mulheres na nossa sociedade ainda têm o papel de cuidadoras, aquelas que têm obrigações domésticas estandardizadas, sendo às mesmas que se cobra a comida na mesa, a roupa e louça lavada, os filhos limpinhos e a casa organizada. Para tal, a água torna-se num recurso indispensável. A água permite que todo o processo de cuidado e manutenção do “lar” se efective. Sem água por perto, as mulheres tinham (e algumas ainda têm) de percorrer longas distâncias para a conseguirem e, assim, fazerem cumprir o seu papel de “donas de casa”. Por este motivo, quando foram ouvidas relativamente às prioridades de resolução dos diferentes problemas com que vivem, as comunidades não hesitaram em invocar a importância dos reservatórios de água para mitigar o problema da seca. A partir desse momento, as mulheres tiveram um papel determinante durante e depois da  construção dos sistemas de retenção de águas pluviais, nomeadamente na participação da identificação do espaço; na mobilização de outras mulheres para a participação no processo; na limpeza do local de construção dos sistemas; na participação no trabalho de preparação da alimentação das membras e membros envolvidos no processo de escavação do buraco e construção; na comparticipação da alimentação (fuba, feijão, cabrito, lombi, cebola, e outros temperos); no controlo dos meios e registo das presenças dos membros; no transporte de água para a confeição das placas; no transporte da areia; na preparação de placas; no transporte de entulho; na preparação dos terrenos para a introdução de culturas de ciclo curto; e na introdução das culturas de batata-doce e hortícolas junto dos espaços criados e construídos.

Em relação ao envolvimento das mulheres no processo de construção dos sistemas de retenção de águas pluviais, verificam-se acções em duas dimensões importantes: uma que reforça o papel “cuidadora”, e outra que apela às responsabilidades técnicas do processo de construção do sistema de retenção de águas pluviais. Em relação à primeira dimensão, as mulheres continuaram a preparar a comida para os pedreiros/as e outros (as) membros das comunidades e a preparar os terrenos para a introdução de novas culturas agrícolas. De alguma forma, estas acções reforçam a domesticidade das mulheres, apesar de todo o processo se desencadear fora de casa; ou seja, muda-se o espaço, mas as funções permanecem. Já a outra dimensão, favoreceu as mulheres porque permitiu-lhes assumir funções técnicas e públicas, o que se consubstanciou em colocar “as mãos na massa”, ou seja, identificar o espaço para a construção do sistema, manusear a pá de pedreira, colocar os entulhos, participar na formação de pedreiros e responsabilizar-se pela mobilização das comunidades para a manutenção dos sistemas. 

É de enfatizar que o projecto proporcionou uma outra dinâmica à vida das comunidades beneficiárias. Se por um lado, elas têm acesso à água como um bem essencial para a continuidade da vida, manutenção da casa e prevenção de doenças; por outro lado, as mesmas perceberam a importância de se envolverem no processo, redescobrindo as várias potencialidades locais e participando em diferentes níveis do processo, facto que criou um momento de aprendizagem entre todos os actores envolvidos (ADRA, comunidades e Administração Municipal).

Para finalizar, vale a pena lembrar que o acesso à água em Angola é bastante limitado e de acordo com dados do Censo Populacional de 2014, nas zonas rurais apenas 32% de agregados familiares têm acesso à água potável. 

O acesso à água e ao saneamento básico constituem direitos humanos fundamentais, sendo que a sua garantia representa um dos factores decisivos para a redução da pobreza, pelo que o quadro actual do país neste domínio coloca um desafio enorme no que toca à promoção do desenvolvimento humano. 

Ao longo da última década, Angola tem vindo a investir fundos importantes neste sector, particularmente nas áreas urbanas do país. Mas o facto é que os níveis de acesso permanecem muito baixos e os dados mostram que não aconteceram grandes progressos nos últimos anos. Apesar de o Estado ter assumido o compromisso de inverter o quadro implementando o Programa “Água Para Todos”, precisamos repensar as políticas sociais de acesso à água e saneamento, sendo urgente a criação de programas públicos que sejam adaptados à realidade social das pessoas, envolvendo-as activamente, para que se sintam parte da solução. Iniciativas como a que acabamos de descrever devem ser ampliadas pelo Estado, para servir de modelo de referência para outras comunidades que enfrentam o problema da seca. 

Um Estado activo, cooperante e visionário diante das diferentes iniciativas sociais é o que necessitamos para que todos angolanos e todas angolanas consigam embarcar no voo do desenvolvimento sustentável de forma igualitária e justa! 

 

Foto: ANGOP

 

 

 

 

Ondjango Feminista