É lá nesse centro que, finalmente, seremos!

Ilustração de   Adee Roberson

Ilustração de Adee Roberson

POR PAULA SEBASTIÃO

Alguns escritos se nos entranham para sempre. O de autoras negras, então, contam histórias de vultos de ontem que se juntam em olhares de hoje.

 É assim, através desse olhar de ontem, que o nosso pensar de hoje se torna possível e alguns dos nossos tortuosos questionamentos parecem fazer sentido. O poder da identificação deixa-nos menos sós, sem dúvida. Por isso, nunca me esquecerei dos momentos em que (me) li em várias autoras que até hoje me inspiram a pensar, questionar e me ajudam, na verdade, a respirar um feminismo onde me liberto em absoluto e me torno o centro ou no percurso do caminho necessário para o ser.

Afinal, é lá nesse centro que finalmente seremos! Mesmo que seja longa a caminhada.

 Nunca esquecerei o dia em que finalmente li a explicação de bell hooks e Ângela Davis sobre o lugar da mulher negra. Ainda no século XIX, e lendo apenas o prefácio, bell hooks parece-nos tão actual que assusta!

Certamente um “ontem” que nos impressiona e arrepia a pele de uma forma nos fica até hoje. Felizmente, uma presente consciência que se vai criando à medida que se potencia um movimento de mulheres negras e feministas.

Repensei-me nesse outro de ontem que parece tão assustadoramente o de hoje.

Esse lugar da mulher em que tantas vezes nos permitimos questionar, vem de um repensar de tudo o que autoras de referência – que afinal parecem não o ser, quando descobertas outras formas de conhecimento na academia e não só – como Simone de Beauvoir, que nos falam sobre o que é ser mulher. Mas que mulher? Demasiadas vezes nos damos conta da necessidade dessa pergunta face à ideia de que existe uma universalidade da identidade mulher. Essa pergunta se torna então essencial para uma descoberta identitária. Eu estou aí? É a pergunta que nunca se deve calar para nos encontrarmos.

 Simone, feminista branca e europeia, falava de um “outro” como ente secundário ao homem, como a sua sombra cujos direitos e voz eram anulados dentro de uma estrutura sexista institucionalizada – o Patriarcado. Só que o “outro” de que ela falava pode ser, para algumas de nós, um invisível existir. Por não nos encontrarmos lá, era um discurso lá de longe. É, portanto, quando lemos autoras negras académicas e activistas, que (nos) percebemos. Como mulheres negras, temos ocupado cada vez mais espaço, um espaço a que temos direito mas que nos obrigam a conquistar, e o nosso movimento, mesmo tendo começado há algum tempo, só agora caminha, ou parece caminhar, definitivamente,  a passos largos para um objectivo! No entanto, sabemos que temos muito que caminhar. Ainda estamos por vir, mas já o somos ao mesmo tempo.

Como diz Bell Hooks:

"Nenhum outro grupo da América teve a sua identidade tão rasurada da sociedade como as mulheres negras. Raramente nos reconhecem como grupos autónomos e distintos dos negros , ou como, parte integrante, nesta cultura, do grupo alargado de "mulheres". Quando se fala de pessoas negras, o sexismo opõe-se ao reconhecimento dos interesses de mulheres negras; quando se fala de mulheres, o racismo opõe-se ao reconhecimento dos interesses de mulheres negras. Quando se fala de pessoas negras, a atenção tende a cair no homens negro; quando se fala da mulher a atenção tende a recair nas mulheres brancas" (hooks, bell; Não serei eu mulher? As mulheres negras e o feminismo: págs. 25-26).

Nesse rasurar percebemos que somos, afinal, como diz Grada Kilomba “O OUTRO DO OUTRO”. (Kilomba, Grada: Plantation Memories). Enquanto mulheres negras, não nos encaixamos no outro secundário sobre o qual Simone de Beauvoir falava, dado que ela partia de um olhar e a partir de um lugar de mulher branca. Sermos o outro do outro pressupõe que somos  a terceirização – e sabemos que existe uma escala / pirâmide da supremacia branca que determina acessos, direitos e voz, que condiciona o lugar onde nos encontramos cultural, social e economicamente – colocando-nos abaixo do homem branco, depois da mulher branca e por fim depois do homem negro.

A estrutura patriarcal não deixa, porquanto, de ser uma estrutura racializada pelo processo colonial e neo-colonial. É dele que vem esse nosso lugar de terceirização que nos obriga a reflectir sobre a nossa condição num contexto em que sexismo, racismo e classismo se opõem ao sermos sujeitos.

 É essencial que essa reflexão da condição de mulher negra se pessoalize, atendendo às nossas experiências e lugar de diferença, mas que nos permita principalmente politizar a luta.

Hooks dizia que: “ As negras de hoje não se podiam juntar na luta pelos direitos das mulheres porque nós não entendíamos a nossa ”feminilidade” como facto, incontornável, da nossa identidade. A socialização racista levou à desvalorização da nossa feminilidade e a olhar a raça como único rótulo de identificação que importa” Hooks, Bell; Não serei eu mulher? As mulheres negras e o feminismo: pág. 17)

 É essa feminilidade que olha para lá da raça e da estrutura sexista que torna incontornável e urgente o debate sobre a estrutura patriarcal que afecta a mulher angolana, na sua maioria negras. hooks, ao falar-nos de feminilidade, não fala da performance de género[1] a que muitas vezes a feminilidade é reduzida. Fala-nos, sim, do lugar central a ser ocupado pela mulher.

Foi esse lugar central que foi usurpado pela estrutura patriarcal, que na sua perversa manutenção de privilégio sexista, nos retirou como sujeito de leis, espaço social e poder económico, para nos ”oferecer” um vazio de ocupação, ou mesmo uma centralização simulada.

 Ao trazer-nos a reflexão de feminilidade, Hooks queria levar-nos ao questionamento de sermos nós, mulheres negras, muitas vezes pensadas só como negras e nunca como mulheres. O feminismo dá-nos essa hipótese de nos pensarmos como um todo, questionando as estruturas que nos oprimem e que se alimentam entre si. O que exige uma indignação! A indignação de  lá não estarmos!

 A feminilidade aqui pensada é o lugar onde poderemos ser representadas não só como sujeitos políticos, mas como pessoas com voz num discurso que nos represente. É essa a importância de estarmos no centro, de não só nos tornarmos sujeitas mas de, ao fazê-lo, transformarmos o que é dito sobre nós; como é dito sobre nós e que efeitos reais tem sobre nós. É a feminização da luta!

 A feminização é o nosso palco para sair do espaço sombra, de esconde-esconde, onde nos colocaram, seja porque estamos lá numa falsa representatividade; seja porque falam de nós enquanto, simultaneamente, nos silenciam, retirando a nossa própria voz; ou, ainda, porque quando finalmente se nos solta a voz e nos é permitido falar, se corrompe o que realmente quisemos dizer sem que nos deixem gritar.

A feminização é em si um processo de descoberta de como essa estrutura nos violenta. É preciso que percebamos como essa violência acontece. A instrumentalização da feminilidade criou uma aparente preocupação sobre nós, criando a ilusão de que somos o centro de algumas leis que são criadas.

Não somos o centro, já o sabemos. Basta-nos olhar para a  violência que contra nós foi institucionalizada, principalmente em  leis sexistas que alimentam a violência sexual[2], física e económica[3] . Então, feminizemo-las para que possamos, finalmente, encontrar-nos lá!

Ao dizer feminizemo-las, falamos de um olhar em que  nos colocamos como centro dessa lei e nos interrogamos novamente: “e eu, estou aí”? E se não estou, de que forma deveria estar?

 Nestas leis, de que falamos, somos invisíveis! Nelas somos inexistentes, por não termos lá a nossa voz, por não termos as nossas necessidades respondidas, não sendo as mesmas benéficas para nós. Pelo contrário, reforçam a nossa condição de vulnerabilidade.

 Falo, por exemplo, da lei de violência doméstica e o seu  reforço à violência sexual e física ao não oferecer nenhuma definição concreta sobre violência; da  operação resgate que cria maior violência económica, ignorando que é no mercado informal que, pelo menos, 86% das mulheres angolanas obtêm o seu ganha pão; da criminalização de infecções sexualmente transmissíveis no novo Código Penal[4]  [5], dentre as quais o VIH, por colocar a mulher em maior risco de violência e abuso por ser, justamente, a que menos tem acesso aos seus direitos sexuais e reprodutivos, desde contraceptivos, exames de ITS e um planeamento familiar que não se alinhe na noção de reprodução e de “autorização” ou “consentimento” do marido. Por ser ela a coagida ao não uso do preservativo e ser incapaz da negociação por estar em posição económica, de voz e poder desigual, sendo, ainda, culpabilizada pela sua falta de protecção, informação e muitas vezes pela própria violência que sobre si ocorre, principalmente em casos de partilha do estado serológico.

Então, estamos lá? Certamente que não. E se estamos, é-nos benéfico ou nos coloca num estado de maior vulnerabilidade?

Por isso,  falemos de feminização!

Para que tenhamos um olhar sobre o que a lei nos diz e de como nos pode colocar num espaço perpetuado de vulnerabilidade, não atendendo à voz, à experiência, à necessidade e claramente ao que nos seria benéfico. Por isso se torna urgente um olhar humanamente feminino. Um olhar e uma voz que assegure que as leis falem, respondam e, sobretudo, assegurem as necessidades de saberem quem e o que protegem: Nós, Mulheres!

Esse redefinir a partir das nossas experiências, começa num estudo exaustivo do que se deixou de dizer nessas leis; um silêncio ou um “não dito” que precisa gritar reivindicações; um gerar de novas narrativas e renovados conteúdos. Mas que tem a sua nascente num discreto mas incontornável sussurro de indignação: não nos retirem do centro! Não decidam por nós! O quanto antes, tomaremos o lugar para que o façamos nós mesmas.

A feminização torna imperativa a indignação: o espaço de diálogo sobre nós não pode ser definido. Exige que nos indignemos por não estarmos nesse centro da conversa, onde o lugar deveria ser nosso, para que possamos finalmente olhar como lá estamos e exigirmos o como deveríamos estar.

E lá estaremos! Basta que nos indignemos sempre e cada vez mais, e que marchemos para o centro.

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NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Judith Butler explica que a nossa noção de género passa por uma performance, ou seja, a maneira como representamos o género passa por actuarmos a nossa feminilidade ou masculinidade.
[2]Lei Contra a Violência Doméstica – Lei n.º 25/11.
[3]A operação resgate como política pública.
[4] sobre as 10 razões porque  a criminalização não é a resposta leia. http://www.athenanetwork.org/assets/files/10%20Reasons%20Why%20Criminalization%20Harms%20Women/10%20Reasons%20--%20Portuguese.pdf
[5] Sobre a feminização do VIH leia  https://angola.unfpa.org/sites/default/files/pub-pdf/brochura_rostofeminino.pdf?fbclid=IwAR0AJNagJ9COGjU-WWpN5fIcNpLXXhx1kf98QdNx6cPZG--PT5bEJ3jHx3k

Aline Frazão