NOTA PÚBLICA DE REPÚDIO
O Ondjango Feminista manifesta a sua mais profunda indignação e repúdio perante os conteúdos amplamente divulgados nas redes sociais e atribuídos ao cidadão angolano Mendes Wana, nos quais crianças são retratadas em situações que aparentam representar, banalizar ou normalizar a violência e o abuso sexual contra menores.
Os vídeos, apresentados sob um tom de humor e acompanhados por músicas e elementos que procuram transformar estas situações em entretenimento, mostram um adulto a chamar crianças para espaços isolados, construindo narrativas que remetem para contextos de abuso sexual. Independentemente do enquadramento alegado por quem produziu o conteúdo, trata-se de uma representação profundamente perturbadora, que instrumentaliza crianças e trivializa uma das mais graves formas de violência contra elas.
É inaceitável que a violência sexual contra crianças seja tratada como piada, estratégia para gerar visualizações ou conteúdo para redes sociais. A existência e circulação deste tipo de material revelam um problema muito mais profundo: a preocupante banalização da violência contra crianças e a normalização de práticas que deveriam causar indignação colectiva imediata.
O que mais nos preocupa não é apenas a existência destes conteúdos, mas o facto de terem sido produzidos com aparente naturalidade, publicados para consumo público e recebidos por muitos como entretenimento. Isso revela o quanto a violência contra crianças continua a ser desvalorizada e banalizada na nossa sociedade. Uma sociedade em que alguém acredita poder produzir este tipo de conteúdo, publicá-lo sem constrangimento e esperar que seja recebido com humor é uma sociedade onde a violência sexual contra crianças já foi perigosamente normalizada.
Este caso não pode ser visto como um episódio isolado. Infelizmente, tem-se tornado cada vez mais evidente que há pessoas que se sentem confortáveis em produzir, gravar e divulgar conteúdos que expõem crianças à violência ou que transformam situações potencialmente abusivas em espetáculo. Recordamos, com enorme preocupação, o caso da menina Belma, cuja situação de violência foi gravada e amplamente partilhada nas redes sociais, evidenciando a facilidade com que a dignidade e os direitos das crianças são violados perante a passividade de muitos.
A banalização da violência não acontece apenas quando ela é praticada. Acontece também quando é transformada em entretenimento, quando é filmada, quando é partilhada e quando a dor de uma criança passa a valer mais como conteúdo do que como motivo de protecção. Não podemos permitir que a infância seja consumida como espetáculo.
As crianças não podem continuar a ser reduzidas a instrumentos de entretenimento, objectos de exploração ou meios para obtenção de notoriedade nas plataformas digitais. Cada criança tem direito à dignidade, à protecção e ao desenvolvimento num ambiente seguro, livre de todas as formas de violência.
O Ondjango Feminista apela ao Serviço de Investigação Criminal (SIC), à Procuradoria-Geral da República (PGR), ao Instituto Nacional da Criança (INAC) e às demais autoridades competentes para que procedam, com urgência, à investigação rigorosa deste caso, apurando eventuais responsabilidades criminais e adoptando todas as medidas necessárias para garantir a protecção das crianças potencialmente envolvidas.
Apelamos igualmente às plataformas digitais para que removam conteúdos que coloquem crianças em situações de vulnerabilidade ou que promovam, normalizem ou incentivem qualquer forma de violência contra menores. E que os internautas denunciem esse tipo de perfil e conteúdos também.
Este momento exige não indignação nas redes sociais. Exige responsabilização, prevenção e uma resposta firme do Estado. Enquanto continuarmos a tolerar a banalização da violência contra crianças, estaremos a contribuir para uma cultura de impunidade que coloca em risco a infância de milhares de meninas e meninos em Angola.
O silêncio nunca protegerá as crianças. A impunidade também não.
Luanda, 21/07/2026