"Nunca acreditei que algo assim poderia acontecer comigo"

Por Nininha Cunha, Laurinda Gouveia e Rosa Conde 


Este é um relato feito ao Ondjango Feminista e publicado com a devida autorização de quem o confiou a nós. A sua transcrição foi feita por quem assina este texto. As palavras utilizadas podem ser fortes e muitos destes textos falam de abusos sexuais e de outros tipos de violência. 

Por serem relatados na primeira pessoa, primamos por escrever as palavras como as ouvimos, sendo que o texto é apresentado em linguagem corrente e eventualmente poderão surgir gírias, expressões em línguas nacionais e outras. 

O Ondjango Feminista reserva-se ao direito de alterar dados de Identidade ou Localização com vista à protecção da Mulher que nos confiou este momento. 

 

...enquanto tentava entender o que estava a acontecer ele pôs as mãos debaixo da minha saia e com toda força baixou a minha roupa interior...

"Tenho de 21 anos, sou solteira, estudante universitária e trabalho como balconista. Frequento o curso de Enfermagem no horário nocturno e namoro há dois meses com um jovem de 28 anos. Moro no Camama, em Luanda, com a minha mãe e irmãos. Considero-me uma jovem normal, com um comportamento adequado para minha idade, educação e meio onde vivo.

Lembro-me como se fosse hoje, foi numa segunda-feira, dia 16 de Janeiro de 2017, por volta das 21h30, depois de sair do curso. Como habitualmente faço, peguei um táxi, que me deixou à entrada da minha rua, onde tenho de percorrer uma distância de, mais ou menos, 300 metros até chegar a casa. A rua é estreita e de difícil acesso para carros, e para além de estreita, não tem iluminação, é bem escura. 

Depois de ter caminhado 100 metros percebi que estava dois homens, com idades compreendidas entre 20 aos 30 anos, encostados à parede, e desacelerei o passo, pressenti que algo ruim ia acontecer e o meu pressentimento não me traiu.

Os dois homens vieram ao meu encontro e exigiram que entregasse a carteira, onde tinha apenas alguns kwanzas para pagar o táxi da semana e o telefone - obedeci. Pensei que dessa forma me deixariam em paz e conseguiria chegar a casa bem, eu mal sabia que era apenas o começo de uma jornada de tortura e que estava prestes a adquirir uma marca que nunca mais sairá de mim.

Mas depois do assalto, um dos homens agarrou-me pelo pescoço e tapou a minha boca. Arrastaram-me para um beco. Enquanto tentava entender o que estava a acontecer o outro pôs as mãos debaixo da minha saia e com toda força baixou a minha roupa interior, colocou-se entre as minhas pernas, tirou o seu pênis para fora das calças e colocou-o dentro de mim. Foi horrível, foi doloroso... Não sei dizer se ele chegou a ejacular dentro de mim, só sei dizer que foi horrível... Quando 'terminou', os dois saíram a correr.

Chorei... Gritei por ajuda.. Mas ninguém saiu de casa. Então levantei-me e arrastei-me até casa, naquele momento a minha vida mudou.

Nunca acreditei que algo assim poderia acontecer comigo. Fiquei paralizada, não sabia o que fazer. Sentia-me suja e tomei banho, esfreguei-me com toda força. Parecia que o cheiro dele estava em mim... Nem quero lembrar... Depois pensei, o que fazer?! Digo a minha mãe?! Mas ela já tem tantos problemas... Conto para o namorado?! Mas não sei se ele entenderá, começamos a namorar há pouco, nem sei se ele vai querer continuar comigo... 

Não dormi a noite inteira, o meu coração pulava, as minhas mãos tremiam e suava muito. No dia seguinte decidi ir à esquadra mais próxima, mas me senti desanimada, vi uma sala minúscula, onde estavam mais de oito homens algemados e dois polícias, e recuei. Não ia contar o que aconteceu comigo àquela plateia. Os dias passaram e a minha angústia só aumentava, revivia aquele dia todos os dias, sentia o toque daquele homem... Até hoje está na minha memória, até hoje choro, até hoje dói...

Vários dias passaram, quase um mês de angústia, ansiedade, insónia, falta de apetite. Passei a arrancar o meu cabelo.

Algum tempo depois, tive coragem e conversei com um amigo que me aconselhou a fazer o teste de HIV. No principio fiquei com medo, mas depois ganhei coragem e fiz, foi um alívio saber que estava negativo na altura, sei que terei de repetir dentro de três meses e já tenho medo. 

Vivo com medo, já não consigo andar sozinha de noite, desconfio de quase todos os homens. 

Eu só queria que isto não tivesse acontecido, só queria poder apagar aquele dia da minha memória."

 

Foto de Adeola Olagunju (Nigéria), da série Resurgence: A Manifesto. Conheça o trabalho da artista aqui

 

Ondjango Feminista