O que aprendi com o Ondjango Feminista

Por Aline Frazão

 

O conceito de privilégio é, provavelmente, um dos mais incómodos da história do progresso ético das sociedades. É lá que reside o nosso ponto fraco, a subtileza bruta por detrás de qualquer injustiça, aquilo em que não queremos tocar e aquilo que não queremos, acima de tudo, ver.

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Eu já era feminista quando me juntei ao Ondjango. Eu já era contra o racismo, contra a exclusão social, contra a xenofobia, a homofobia, a transfobia e até contra o especismo. Também já sabia que todas as injustiças sociais do mundo andam juntas, como se um cordão as unisse em silêncio, sorrateiro e mesquinho. O exercício que me faltava era olhar para mim mesma. E esse exercício é tudo.

O que tenho aprendido ao lado das manas do Ondjango Feminista é a pôr em causa, numa práctica diária e exaustiva, em detalhe, os meus próprios privilégios. Aprendi a olhar para mim como a mulher que sou, para o privilégio de ter nascido na família em que nasci, para as oportunidades que tive de estudar, de fazer um curso universitário, de aprender línguas, viajar livremente com a minha dupla nacionalidade, de realizar os meus sonhos, ter uma voz, ser ouvida. Aprendi a olhar para a cor da minha pele e a ver como ela me coloca, tantas e tantas vezes, em situação de vantagem no meu país.

Aprendi que uma luta feminista, em Angola, jamais se poderá dissociar de um questionamento sério à cerca desses assuntos difíceis de abordar. Porque sempre achamos que as nossas boas intenções de justiça nos bastam. Só que não.

A luta feminista dentro do continente africano não pode fechar os olhos ao debate de classe. Os problemas das mulheres ricas não são exactamente os mesmos problemas das mulheres pobres. Os discursos da emancipação feminina, das lideranças, do “equal pay”, da compatibilidade entra a maternidade e a carreira e até mesmo o do aborto livre, muitas vezes excluem milhares de mulheres trabalhadoras, que batalham todos os dias pelo simples direito ao emprego digno ou a um parto que não lhes coloque a vida em risco.

Não poucas vezes, existe um conflito de interesses entre as duas agendas. Para dar um exemplo, frequentemente, para que uma mulher de classe alta ou média possa ser mãe e seguir com a sua carreira, outras mulheres cuidam da sua casa e dos seus filhos, em condições laborais, na maior parte das vezes, precárias. A relação entre a “mulher-patroa” e a “mulher-empregada” pauta-se quase sempre por dinâmicas de poder que perpetuam uma fragilidade dentro do próprio movimento feminista.

É, por isso, urgente que façamos o caminho até ao fim. É importante que nos questionemos sobre que tipo de feminismo queremos defender, que tipo de país queremos para as mulheres angolanas. Pois da mesma forma que é necessário combater a desigualdade que existe entre homens e mulheres, é preciso combater as desigualdades que existem entre as mulheres. Precisamos de um feminismo que consiga representar a todas, não só algumas. Para isso, precisamos observar-nos e observar as histórias de mulheres com percursos diferentes dos nossos.

Pôr em causa os nossos privilégios nos permite ganhar mais consciência do nosso lugar na sociedade e da forma como ela nos favorece ou prejudica. Acaba por ser um estudo, isso de tentar ver para além dos muros. Ao contrário do que possa parecer, esse exercício não nos fragiliza. É através dessa acção de desconstrução que muitos muros se derrubam, diluindo a tensão acumulada em torno de assuntos tabus que não se resolvem com silêncio e omissão.

Este texto é sobre muitas dessas conversas que precisam de ser começadas, todas elas importantes, todas elas com tremendas complexidades históricas que nunca se resolverão numa abordagem maniqueísta de “bons e maus”, “heroínas e vilãs”. Mas é preciso começar por algum lado. E o Ondjango Feminista, sem dúvida, já começou.

Aline Frazão