Ecofeminismo, Género e Justiça Climática: Reflexões a partir da Escola Feminista 2026
Último dia da Escola Feminista 2026
Entre os dias 12 e 17 de fevereiro de 2026, realizámos a 4.ª edição da Escola Feminista, este ano sob o tema “Ecofeminismo, Género e Justiça Climática”, na província do Kwanza Norte. Esta edição marcou um passo importante no nosso percurso, sendo a primeira vez que levámos a Escola para fora de Luanda, reafirmando o nosso compromisso com a descentralização do pensamento e da formação feminista.
Por que Ecofeminismo?
A escolha do tema partiu , em primeiro lugar, das recomendações expressas pelas participantes do FAOFEM-2023 que apontaram a necessidade de um aprofundamento crítico do ecofeminismo enquanto ferramenta política e pedagógica para compreender e enfrentar as múltiplas crises ambientais que atravessam a vida das mulheres em Angola. Em particular, sublinhou-se a urgência de explorar de forma mais estruturada a relação entre as alterações climáticas, as desigualdades de género e os modelos de exploração dos recursos naturais que moldam o actual padrão de desenvolvimento do país.
E também de uma constatação urgente: as crises ambientais não afectam todas as pessoas da mesma forma. As mulheres, sobretudo em contextos rurais e periféricos, estão entre as mais impactadas pela degradação ambiental, escassez de recursos e alterações climáticas. Ao mesmo tempo, são também protagonistas de soluções comunitárias, práticas sustentáveis e formas de resistência territorial.
“O corpo da mulher apesar de ser um espaço de exploração também é uma ferramenta de resistência.”
Alunas da 4ª Escola Feminista ao chegar no local de aulas (Horto Botanico de Ndalatando)
No contexto angolano, a exploração intensiva de recursos naturais — nomeadamente petróleo, diamantes, mineração industrial e artesanal, apropriação de terras e degradação dos ecossistemas — tem produzido impactos profundos sobre os territórios, os modos de vida comunitários e, de forma desproporcional, sobre as mulheres. Estas dinâmicas extrativistas, herdadas de uma matriz colonial e aprofundadas por um modelo capitalista patriarcal, tendem a invisibilizar o trabalho das mulheres, a sobrecarregá-las com o trabalho de cuidado, a limitar o seu acesso à terra, à água e a outros bens comuns, e a expô-las a formas acrescidas de violência económica, ambiental e social.
Trazer uma abordagem ecofeminista a partir da experiência das mulheres em África, em particular angolanas, permite, neste sentido, deslocar o debate das alterações climáticas de uma leitura meramente técnica ou ambientalista para uma análise estrutural e política, que reconhece a interligação entre a exploração da natureza, a opressão das mulheres e a marginalização histórica dos povos africanos. Ao valorizar os saberes ancestrais, as práticas comunitárias de cuidado da terra e as experiências de resistência das mulheres nos territórios, o ecofeminismo afirma-se como uma perspectiva transformadora que questiona o modelo extractivo dominante e propõe alternativas baseadas na justiça social, na sustentabilidade da vida e na autodeterminação dos povos.
Do ponto de vista político-pedagógico, a escolha desta temática constitui um ponto de partida estratégico para o fortalecimento do movimento feminista angolano, ao criar um espaço de formação crítica que articula teoria e prática, experiência vivida e análise estrutural.
Sendo a Escola Feminista um espaço de educação popular feminista, orientado para a construção do poder colectivo das mulheres, para a produção de conhecimento situado e para o fortalecimento de agendas feministas de justiça climática, justiça social e defesa dos bens comuns.
Ao aprofundar o ecofeminismo e a justiça climática a partir da realidade angolana, a Escola Feminista pretendeu contribuir para a formação de mulheres conscientes do seu papel político na defesa da vida, dos territórios e das futuras gerações, capazes de intervir nos debates públicos, influenciar políticas e fortalecer as lutas feministas contra os sistemas de opressão que sustentam o actual modelo de exploração e desigualdade.
Momento de pausa na sala de aula
Momento de partilha ao ar livre
Um espaço de partilha entre territórios
A Escola reuniu mulheres provenientes de diferentes províncias do país, com destaque as províncias do Moxico, Namibe, Huíla, Benguela, Lunda-Norte e Sul, Luanda criando um espaço rico de troca de experiências.
Ao longo dos cinco dias, discutimos:
As bases teóricas do ecofeminismo;
A relação entre políticas públicas ambientais e desigualdades sociais;
O impacto das mudanças climáticas nas comunidades;
Estratégias locais de incidência e mobilização.
Mais do que um espaço de transmissão de conteúdos, a Escola foi um espaço de escuta e construção colectiva. As vivências partilhadas revelaram como as questões ambientais se manifestam de formas distintas nos territórios, mas também como existem pontos comuns que nos unem enquanto movimento.
O que levamos connosco
Saímos desta edição com aprendizagens importantes:
A necessidade de integrar a dimensão ambiental nas agendas feministas;
A urgência de construir respostas locais para desafios globais;
O reconhecimento de que o cuidado com a terra também é uma agenda política;
O fortalecimento de laços entre mulheres de diferentes províncias.
A Escola Feminista 2026 reforçou que não há transformação social sem olhar para o território, e não há justiça climática sem justiça de género.
Seguimos comprometidas com a formação política, a construção colectiva e a ampliação do debate feminista em Angola.
“As mulheres estão em constante resistência porque não podem parar senão são esmagadas pelo patriarcado, ou pelo extractivismo, ou qualquer uma outra força opressora.”