MANIFESTO POR BENGUELA, ABRIL 2026

Ondjango Feminista manifesta solidariedade e exige respostas estruturais face às chuvas em Benguela

O Ondjango Feminista, enquanto colectivo comprometido com a justiça social, económica e ambiental e de género em Angola, vem por meio deste comunicado manifestar a sua profunda preocupação em relação aos impactos devastadores das chuvas intensas registadas nas últimas semanas em várias regiões do nosso país, com destaque para a província de Benguela.

Dados do nosso contexto demonstram que entre os meses de março e abril de 2026, Angola registou um dos períodos mais críticos de precipitação dos últimos anos, com consequências humanas e materiais alarmantes.

Em consequência, de acordo com informações disponibilizadas pela imprensa nacional através dos canais oficiais de comunicação, destaca-se que:

● Já foram registadas mais de 40 mortes em todo o país, sendo Benguela a província mais afectada;

● Só em Benguela, o número de vítimas mortais está acima de 20 óbitos, com registo de vários feridos e desaparecidos;

● Mais de 34.000 pessoas foram directamente afectadas, correspondendo a mais de 6 mil famílias;

● Foram registadas mais de 6.700 habitações inundadas e mais de 100 casas desabadas, além de danos significativos em infraestruturas;

● O transbordo do rio Cavaco e o colapso de infraestruturas agravaram o cenário de inundações e desalojamento.


Importa sublinhar que os dados acima apresentados não reflectem, na sua totalidade, a magnitude real das perdas registadas, nem traduzem de forma abrangente a realidade vivida pelas famílias e comunidades afectadas. É plausível que a situação seja significativamente mais grave, tendo em conta as reconhecidas limitações nos sistemas de recolha, reporte e consolidação de dados em contextos de emergência desta natureza.


Este cenário evidencia não apenas um evento climático extremo, mas uma crise estrutural associada à vulnerabilidade urbana, à falta de ordenamento do território e à insuficiente preparação para eventos climáticos cada vez mais frequentes.


O Ondjango Feminista expressa a sua total solidariedade às famílias afectadas, reconhecendo as perdas humanas, materiais e simbólicas que marcam profundamente estas comunidades. Reafirmamos que a solidariedade feminista é mais do que empatia, é compromisso político com a dignidade, com a justiça e com a transformação estrutural das condições que perpetuam a vulnerabilidade.


As chuvas em Benguela expõem de forma clara que as alterações climáticas não são neutras, havendo uma diferença significativa se olharmos para as questões de género. As mulheres, sobretudo as mais pobres, rurais e chefes de família enfrentam impactos desproporcionais, incluindo: maior exposição à pobreza e insegurança alimentar, perda de meios que permitem subsistência básica, sobrecarga de trabalho de cuidado em contextos de crise e risco acrescido de violência em situações de deslocamento e abrigo precário.


É fundamental que as respostas institucionais visibilizem a realidade das mulheres e meninas acima expostas.





O Ondjango Feminista considera que esta crise exige uma resposta que vá além do assistencialismo emergencial. Por isso, é imperativo que o Estado angolano:

● Desenvolva e implemente políticas estruturais de adaptação climática, com foco nas comunidades mais vulneráveis;

● Reforce o ordenamento do território e a construção de infraestruturas resilientes às alterações climáticas;

● Integre de forma efectiva a perspectiva de género nos planos de gestão de riscos e desastres climáticos;

● Garanta sistemas de protecção social robustos e acessíveis para famílias afectadas em situações de calamidade climática;

● Assegure centros de acolhimento seguros, com mecanismos de prevenção e resposta à Violência Contra as Mulheres e Meninas.



Enfatizamos que a protecção das mulheres e meninas é prioridade inadiável. Alertamos que em contextos de desalojamento mulheres e crianças ficam particularmente expostas a múltiplas formas de violência e exclusão.

Assim, exigimos:

● A criação de espaços seguros e separados nos centros de acolhimento;

● A disponibilização de apoio psicossocial;

● A participação activa das mulheres na definição das respostas comunitárias;

● Apoio específico às mulheres chefes de família.





O Ondjango Feminista reafirma que a protecção da vida e da dignidade da população não é um favor é uma obrigação do Estado.

Neste sentido, também demandamos:

● Transparência na gestão dos recursos públicos destinados a responder esta crise;

● Responsabilização institucional por falhas estruturais recorrentes;

● Participação activa da sociedade civil, incluindo organizações feministas, nos processos de decisão;

● Compromisso político claro com a justiça climática e de género.

O Ondjango Feminista continuará a mobilizar-se para garantir que as respostas às crises em Angola coloquem no centro a vida, os direitos de todos e de forma particular a dignidade das mulheres, meninas e crianças das nossas comunidades.

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